Segundo o relatório global Limiting Overshoot (Limitando a ultrapassagem em tradução livre, publicado na quarta-feira (2) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, na sigla em inglês), o limite de 1,5oC estabelecido pelo Acordo de Paris, em 2015, será ultrapassado nos próximos anos. No cenário mais otimista, o pico do aumento da temperatura atingirá 1,8°C acima dos níveis pré-industriais. A maioria dos outros cenários prevê picos mais elevados.
O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) e a Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês) já sinalizavam que o limiar de 1,5oC seria ultrapassado. Contudo, o novo número é uma fronteira que ainda permite reverter o processo de aquecimento.
“O 1,8°C separa uma ultrapassagem e declínio ainda reversível de um aquecimento que se torna permanente”, afirma Joana Portugal, única representante de instituição brasileira no comitê científico do relatório Limiting Overshoot.
A professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também é autora principal do Capítulo 3, que aborda futuros nacionais e globais no contexto do desenvolvimento sustentável e das mudanças climáticas, do Grupo de Trabalho III do Sétimo Ciclo de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima.
Outros especialistas brasileiros colaboraram como autores do relatório Limiting Overtshoot.
Acima de 1,5°C, os riscos e impactos se intensificarão a cada fração de grau adicional e a cada ano. O relatório alerta que a probabilidade de ultrapassar pontos de não retorno irreversíveis aumenta com a magnitude e a duração de temperaturas mais elevadas.
O relatório Limiting Overshoot identifica uma trajetória de ultrapassagem, pico e declínio como a melhor opção para minimizar a magnitude e a duração dessa ultrapassagem e tentar retornar a um nível abaixo de 1,5°C o mais rápido possível. “Vale sublinhar que o relatório é explícito ao afirmar que a ultrapassagem e declínio não permite uma menor ambição climática. A meta de 1,5°C permanece e é reafirmada”, afirma.
A pesquisadora Joana Portugal nos ajuda a compreender a relevância e implicações dos novos dados e do processo de overshoot. Leia a entrevista:
Projeto Ciência&Cima: Por que é tão relevante o relatório ter apresentado o novo panorama de overshoot de 1,8oC?
Joana Portugal: Porque pela primeira vez uma instituição da ONU desloca o eixo do debate. Se, até aqui, a comunidade internacional tem discutido como evitar ultrapassar 1,5°C, o relatório mostra que a ultrapassagem e declínio ocorrerá na próxima década em todas as estimativas centrais. Mesmo no cenário mais otimista, ou seja, com a implementação efetiva de todos os planos climáticos nacionais somada ao cumprimento das metas adicionais de neutralidade, os cenários climáticos mostram que o pico de aquecimento fica em torno de 1,8°C, com faixa de 1,7 a 2,2°C. Sob as políticas atualmente em vigor, a mediana chegará a cerca de 2,6°C em 2100. E 1,8°C não é um número qualquer. É, na verdade, o que se considera ser a fronteira da reversibilidade. O relatório indica que, acima de aproximadamente 1,8°C, o retorno a 1,5°C ainda neste século torna-se progressivamente inviável porque a remoção de carbono exigida escala para centenas de gigatoneladas. Além disso, a capacidade natural de captura e retenção se degrada num mundo mais quente. Ou seja, 1,8°C separa uma ultrapassagem e declínio ainda reversível de um aquecimento que se torna permanente.
Projeto Ciência&Clima: A UNEP explica que o overshoot não é um momento, mas um caminho ou uma trajetória que vai acontecer, e precisará ser revertida. Na sua avaliação, qual a mensagem que as pessoas precisam compreender sobre o overshoot sob a perspectiva da ciência?
Joana Portugal: É muito importante que todos nós compreendamos que um futuro de overshoot não é um alarme que dispara num ano quente. Ele se define pela média multidecadal da temperatura e descreve uma sequência de quatro estágios, excedência, pico, declínio e estabilização, que se estende por décadas, possivelmente séculos.
Daí decorrem duas coisas. A primeira é que o declínio não é automático. Estabilizar a temperatura já exige emissões líquidas zero de CO₂; revertê-la exige emissões líquidas negativas sustentadas por décadas, acompanhadas de cortes profundos de metano, que responde por cerca de 0,5°C do aquecimento atual. Nada disso acontece por inércia. Cada cinco anos de emissões elevadas acrescenta aproximadamente 0,1°C ao pico, e as mais de 400 GtCO₂ emitidas desde 2015 já elevaram em cerca de 0,2°C o menor aquecimento ainda alcançável.
A segunda é que nem tudo volta quando a temperatura reduz. Elevação do nível do mar, extinções, mudanças de regime em ecossistemas e a eventual desestabilização de elementos de inflexão persistem muito além do pico. Retornar a 1,5°C não é retornar ao mundo de 1,5°C. Por isso, a mensagem científica não é de resignação, mas sim de urgência redobrada. Cada décimo de grau evitado e cada ano a menos acima de 1,5°C reduz risco, evita perdas irreversíveis e preserva opções.
Projeto Ciência&Clima: Quais outros aspectos o relatório enfatiza?
Joana Portugal: Vale sublinhar que o relatório é explícito ao afirmar que a ultrapassagem e declínio não permite uma menor ambição climática. A meta de 1,5°C permanece e é reafirmada, inclusive, pela Corte Internacional de Justiça e por resolução da Assembleia Geral da ONU. No entanto, temos de ter consciência de que esta meta passa a ser perseguida por cima, combinando mitigação acelerada e adaptação transformacional em paralelo.
É igualmente relevante ter em consideração que a remoção de dióxido de carbono é um complemento, jamais substituto, de redução de emissões. Seriam necessários mais de 100 anos de florestamento na escala atual, com emissões residuais zeradas, para baixar 0,1°C de aquecimento global. Mesmo um escalonamento otimista entregaria apenas poucos décimos de grau neste século. Além do mais, o armazenamento geológico é finito e apenas manter emissões líquidas zero poderia esgotar a capacidade estimada em bacias sedimentares até 2200.
Por fim, destaco a dimensão distributiva, central para o Brasil e para o Sul Global. Os impactos e os custos do overshoot recaem desproporcionalmente sobre quem menos contribuiu. Aqui refiro-me às camadas mais vulneráveis da população. A governança do declínio, quem remove, quem financia, o que se reconstrói e o que se abandona, é um problema de justiça tanto quanto de tecnologia, e o relatório reconhece que as arquiteturas atuais, incluindo o Fundo de Perdas e Danos, estão muito aquém das necessidades projetadas.
Fonte: Portal Gov BR