As descobertas científicas permanecem vivas na história. Até mesmo as sobrepostas por novos desdobramentos aparecem citadas como parte do caminho que levou a determinada conclusão. No entanto, pouco se mantém em evidência os nomes de qual ou quais cientistas estiveram por trás do que ao final se mostrou uma pesquisa importante. Por isso, Marie Curie, ganhadora de dois prêmios Nobel — um em Física e outro em Química —, desponta como uma pesquisadora sempre lembrada. Seu nome e sua história sobreviveram ao tempo.
No final do século XIX, a ciência começava a revelar que a matéria guardava fenômenos que até então eram desconhecidos. Em 1896, o físico francês Henri Becquerel havia observado que sais de urânio emitiam espontaneamente uma forma de radiação. O fenômeno despertou o interesse de Marie Curie, que decidiu transformá-lo em objeto de investigação sistemática. A partir dessas pesquisas, a cientista ajudaria a estabelecer um novo campo de estudo: a radioatividade. Ela foi responsável por uma mudança profunda na compreensão da matéria.
Nascida em Varsóvia, em 1867, Marie Skłodowska mudou-se para Paris em 1891 para continuar os estudos. Na Universidade de Paris, formou-se em Física e Matemática e passou a se dedicar à pesquisa científica. Foi nesse período que começou a investigar os raios emitidos pelo urânio.
Mais do que observar a existência da radiação, Curie procurou medi-la e compará-la em diferentes substâncias. Esse procedimento levou a uma constatação importante: a intensidade da radiação estava relacionada à quantidade do elemento presente e não dependia simplesmente da forma química em que ele se encontrava, se tratava de uma nova propriedade da matéria.
“A história da descoberta e do isolamento dessa substância forneceu provas para minha hipótese de que a radioatividade é uma propriedade atômica da matéria e pode fornecer um meio para a busca de novos elementos. Essa hipótese levou às teorias atuais da radioatividade, segundo as quais podemos prever com certeza a existência de cerca de 30 novos elementos que geralmente não conseguimos isolar ou caracterizar por métodos químicos”, afirmou Marie Curie em 1911, durante o discurso de aceitação do seu segundo Nobel, em Química, realizada no auditório da Real Academia de Ciências em Estocolmo, Suécia.
Uma anomalia no minério
A investigação ganhou uma nova direção quando Curie passou a analisar minerais que continham urânio, um deles, a pechblenda. “Mas um fato inesperado foi observado: certos minerais (pechblenda, calcolita, autunita) apresentaram atividade maior do que a esperada com base em seu teor de urânio ou tório. (…) Isso contradizia a visão de que nenhum mineral deveria ser mais radioativo do que o urânio metálico”, explicou a cientista.
Em vez de considerar o resultado uma anomalia experimental, Curie formulou uma hipótese: o minério deveria conter alguma substância ainda desconhecida, mais radioativa que o urânio.
A partir dessa hipótese, começou um extenso trabalho de análise química. Marie e Pierre Curie, seu marido, processaram amostras do minério, separando seus diferentes componentes e medindo a atividade radioativa dos materiais obtidos em cada etapa. A estratégia combinava química analítica e medições físicas para localizar a origem da radioatividade.
Em julho de 1898, os pesquisadores anunciaram a existência de um novo elemento associado ao bismuto e propuseram o nome polônio, em referência à terra natal de Marie. Meses depois, anunciaram evidências da existência de outro elemento, ainda mais radioativo, associado quimicamente ao bário: o rádio. Foi também nesse período que o termo radioatividade passou a ser utilizado para descrever essa propriedade.
Descobrir não era suficiente
A identificação de uma nova substância era apenas o começo. Para demonstrar que o rádio era realmente um novo elemento químico, era necessário separá-lo, determinar suas propriedades e estabelecer seu peso atômico.
Essa etapa exigiu anos de trabalho experimental. O rádio estava presente na pechblenda em quantidades extremamente pequenas e misturado a outros elementos, principalmente o bário. Marie Curie desenvolveu métodos de separação e concentração que permitiram obter quantidades cada vez mais puras do elemento.
Em sua Conferência Nobel, Curie descreveu o processo de sucessivas separações químicas empregado para concentrar o rádio. A pesquisa combinava procedimentos de laboratório com medições da radioatividade, permitindo acompanhar a concentração do elemento durante as diferentes etapas.
Em 1910, em colaboração com André Debierne, Curie conseguiu obter o rádio em sua forma metálica. O resultado forneceu uma demonstração decisiva da existência do novo elemento e permitiu aprofundar o estudo de suas propriedades.
A trajetória de Marie Curie é ainda mais impressionante quando fica claro que sua contribuição não se resumiu à identificação de novos elementos. Ela ajudou a desenvolver métodos experimentais para estudar a radioatividade, estabelecendo procedimentos que seriam fundamentais para o avanço da área.
Dois Nobéis e uma nova área científica
A importância das pesquisas apareceu em duas premiações diferentes. Em 1903, Marie Curie recebeu o Nobel de Física juntamente com Pierre Curie e Henri Becquerel, pelo trabalho relacionado aos fenômenos de radiação. Em 1911, recebeu sozinha o Nobel de Química, pela descoberta dos elementos rádio e polônio, pelo isolamento do rádio e pelo estudo de suas propriedades e compostos.
Ao receber o segundo Nobel, Curie afirmou que as pesquisas iniciadas a partir da descoberta de Becquerel haviam levado à uma nova ciência:
“Graças a essa descoberta de novas substâncias radioativas muito potentes, particularmente o rádio, o estudo da radioatividade progrediu com uma rapidez maravilhosa: as descobertas se sucederam rapidamente, e ficou evidente que uma nova ciência estava em desenvolvimento”, afirmou à época.
O reconhecimento também refletia uma mudança mais ampla no período. A radioatividade passou a ser investigada por pesquisadores de diferentes países e contribuiu para novas perguntas sobre a estrutura e as transformações da matéria. O laboratório dirigido por Curie no Instituto do Rádio, fundado em Paris em 1914, tornou-se posteriormente um importante centro internacional de pesquisa.
Da pesquisa fundamental às aplicações
As descobertas sobre os materiais radioativos também abriram caminho para aplicações na medicina. O rádio passou a ser estudado como fonte de radiação para tratamentos, especialmente de tumores, enquanto o conhecimento sobre a radioatividade avançava em diferentes áreas da Física, da Química e da Medicina.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Curie também trabalhou na aplicação dos raios X à medicina de campanha. Ela ajudou a organizar unidades móveis de radiografia que permitiam realizar exames próximos às áreas de combate, ampliando as possibilidades de diagnóstico de soldados feridos.
A trajetória científica de Marie Curie atravessa diferentes etapas da produção do conhecimento. A contribuição da cientista parte de uma observação experimental para a formulação de uma hipótese, a criação de métodos para testá-la, a descoberta de novos elementos, a caracterização de suas propriedades e a abertura de novas possibilidades de pesquisa e aplicação.
Mais de um século depois, sua contribuição permanece associada não apenas aos dois prêmios Nobel, mas à transformação provocada pelo estudo sistemático da radioatividade. Ao investigar uma propriedade então desconhecida da matéria, Marie Curie ajudou a estabelecer as bases de uma área científica que influenciaria profundamente a Física, a Química e a Medicina e mostrou a todos que presenciaram, à época, e aos que a leram depois, que o fato de ser mulher não a impediu de ser uma das cientistas mais importantes da história.
Fonte: Portal Gov BR