Militares desertores ou da ativa são presos por tráfico de drogas, roubos e homicídios

Em plena intervenção federal na segurança do estado, cada vez mais militares têm abandonado as Forças Armadas para combater ao lado de bandidos. Um levantamento do EXTRA revela que 14 praças que respondem pelo crime militar de deserção — abandonar por mais de oito dias, sem explicação, a unidade onde serve — foram capturados nos últimos cinco anos integrando quadrilhas de traficantes ou de assaltantes.

O levantamento foi feito com base em dados da Justiça Militar, da Polícia Civil e da Secretaria estadual de Administração Penitenciária. Em 2017, outras 21 pessoas que portavam identidades militares foram presas em flagrante no Rio por tráfico ou roubo — uma prisão a cada 17 dias. Estes não desertaram: estariam na ativa ou seriam ex-militares, apesar de andar com identidade funcional.

Onze dos 14 desertores recapturados são soldados do Exército. Sete foram detidos por tráfico de drogas e seis por roubo. Um foi detido em flagrante por homicídio.

Seis meses após ser processado por deserção, o soldado Yuri Alevato Branco, de 24 anos, e dois comparsas foram abordados num Corsa por uma equipe do 20º BPM (Mesquita), em Nova Iguaçu. Após revista no carro, os PMs encontraram dois revólveres sob os bancos. Perguntado sobre o motivo de levar armas no veículo, Yuri teria respondido, segundo os PMs, que “havia quebrado um cara” numa rua próxima.

No local, os PMs encontraram o corpo de Robson de Souza. Segundo o Ministério Público, ele foi morto durante “uma discussão relacionada ao tráfico de drogas”. Yuri vai enfrentar júri popular em agosto.

Maioria dos detidos era do Exército

No ano passado, 15 militares ou ex-militares foram presos em flagrante por tráfico ou associação para o tráfico. Já outros seis respondem por roubo. Onze dos presos tinham carteiras de identidade militar expedidas pelo Exército, oito eram da Marinha e somente dois tinham documentos da Aeronáutica. Somente duas das detidas eram mulheres.

O fato de os presos terem identidades militares não é garantia de que eles estavam na ativa na época do crime. Somente cinco deles afirmaram, na delegacia, que eram militares. Os outros disseram ter outras profissões.

Um dos presos que admitiu ser militar é o sargento Carlos Alberto de Almeida, de 46 anos, apontado pela Polícia Civil como o maior armeiro do tráfico no Rio. Na operação da Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme) que resultou na prisão de Almeida, na Favela da Coreia, em Senador Camará, a polícia apreendeu sete fuzis, seis pistolas e diversos equipamentos de reparo de armas: o sargento mantinha oficinas em várias comunidades onde fazia uma série de modificações em armas a pedido dos bandidos.

Conhecido também como Soldado, Mauricinho ou Professor, Almeida era lotado na Escola de Sargentos de Logística do Exército Brasileiro (ESSLOG) e, por mais de 25 anos, serviu na reserva de armamento da unidade militar. Segundo afirmou aos agentes responsáveis por sua prisão, ele começou a fazer serviços para traficantes após passar por dificuldades financeiras há dez anos.

Já Luiz Felipe Oliveira de Araújo, de 24 anos, assumiu que atuava para o tráfico como “atividade”, o bandido que monitora os acessos à favela com rádio de comunicação nas mãos. Preso pela PM em Guapimirim, ele recebia R$ 20 pelo serviço.

Reincidentes

Alguns dos militares desertores se envolveram em mais de uma ocorrência após abandonarem as Forças Armadas. O ex-soldado Anderson dos Santos Luiz, de 23 anos, desertou em fevereiro de 2014. Em maio do mesmo ano, ele foi detido por policiais do 9º BPM (Rocha Miranda), em meio a uma operação na comunidade São José da Pedra, em Madureira, por estar próximo a uma mochila com mais de dois mil pinos de cocaína.

Tráfico

Após ser levado para a delegacia, Anderson foi liberado. Em setembro de 2017, ele foi atingido po policiais do 3º BPM (Méier), durante ação no Morro do Dezoito, em Água Santa. Na delegacia, os agentes acusaram Anderson de portar uma pistola e atirar contra os policiais. O desertor foi levado ao Hospital municipal Salgado Filho, onde foi medicado, e, em seguida, foi encaminhado ao sistema prisional. Segundo a Seap, ele está preso até hoje.

Processos

Os processos de deserção de todos começaram a tramitar de 2012 a 2016. Já as prisões aconteceram de 2013 até o início do ano. Em um dos casos, o militar foi preso após ser processado por deserção.

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